terça-feira, 3 de maio de 2016

Entidades científicas criticam chance de bispo licenciado assumir a Ciência

Folha de SP
Juliana Cunha
3 de maio de 2016 - 18h46 - Atualizado às 20h23

Helena Nader /Crédito: Antonio Cruz (ABr) - (a foto usada na Folha é outra)

A comunidade científica reagiu mal à perspectiva de ter o bispo licenciado da Igreja Universal e presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, diante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em um eventual governo do vice-presidente Michel Temer.

A professora Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), disse que "tem notícias que é melhor a gente ler e voltar para a cama".

Para ela, escolha de Pereira não deixa dúvidas de que ministério virou moeda de troca política.

"Nada contra religião, mas não dá para misturar fé com Ciência, isso é um retrocesso imenso. O que precisamos é de uma pessoa empenhada no progresso científico e que tenha conhecimento técnico a nos acrescentar, não de uma pessoa com a uma agenda religiosa. Cada um tem sua crença, porém isso fica de fora da Ciência, que deve ser regida por uma ética própria", diz.

Nader critica o troca-troca de ministros durante o segundo mandato de Dilma –cinco nomes se revezaram na pasta em pouco mais de um ano–, mas afirma que, apesar da parca durabilidade das gestões, os projetos foram mantidos, assim como a orientação geral do ministério.

"Os ministros [Marco Antonio] Raupp e [Aloizio] Mercadante continuaram ajudando a pasta mesmo quando deixaram o gabinete. O ministro Aldo [Rebelo], em que pese as grandes discordâncias que já tivemos, é um sujeito sério e que batalhou pelo fortalecimento do ministério. O [Celso] Pansera não tem nada a ver com Ciência, mas pelo menos manteve boa parte do que vinha sendo feito", afirmou.

Para Nader, quem "tesourou" as iniciativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação durante o governo Dilma foram os ministérios da Fazenda e do Planejamento.

"Eu não tenho do que reclamar da presidente Dilma, mas a deterioração do financiamento científico durante o governo dela é responsabilidade dos ministros da Fazenda e do Planejamento, os atuais e os anteriores. Foram eles que podaram todas as tentativas de ampliar a pesquisa, com seu entedimento economicista de que inovação é gasto. São pessoas interessadas em fechar as contas, não em um projeto de país", disse Nader.

Já o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, evitou comentar o fato de o possível futuro ministro ser bispo. "O que esperamos é que a pessoa a ser indicada para o ministério esteja afinada com a comunidade científica e tecnológica, independentemente de quem seja", afirmou.

Para Palis, "o MCTI é extremamente importante para o desenvolvimento da ciência em benefício da sociedade, por isso é importante que o novo ministro seja o mais qualificado possível e dialogue bem com a comunidade. Ao ter a confiança da comunidade e do governo, o ministro terá durabilidade no cargo. O importante é a preservação do MCTI e dos bons funcionários do Ministério", concluiu.

Procurada, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) não quis se posicionar sobre o assunto.

CRIACIONISMO

Em seu site, a Igreja Universal estimula um debate entre o criacionismo, que prega que Deus criou tudo e todos, e a teoria evolucionista sustentada pela ciência para explicar alterações sofridas por seres vivos ao longo do tempo.

O artigo "De onde veio a sua vida?", que defende a visão criacionista, caracteriza a polêmica como uma "luta sem fim" e afirma que a Bíblia cita informações factuais sobre a questão.

"A Bíblia fala de fatos. Os cientistas (nesse caso) jogam com hipóteses. Ninguém prova o tal big bang", diz o texto da Universal. "As tentativas de o homem substituir Deus são comuns ao longo da história. (...) O engraçado é que muitos se esquecem de outra passagem de Gênesis em que o homem se afastou de Deus e saiu perdendo muito, conhecendo de perto tudo o que é ruim", acrescenta. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escreva sua mensagem.